Interrelação entre um recurso informatizado X Processos Cognitivo
Outra consideração relevante ao problema da interrelação entre um recurso informatizado e processos cognitivos diz respeito à memória, como uma forma de gerenciamento da informação. Conforme Lévy, assim como a escrita nos permite ampliar a memória a curto prazo, a informática permite ter um auxiliar para a memória biológica, funcionando principalmente como "um módulo externo e suplementar da capacidade de imaginar" (Lévy, p.140). No caso do Cabri, como podemos dispor de algumas construções já prontas, como mediatriz e bissetriz, temos uma espécie de memória auxiliar, pois não é necessário a cada nova construção retomar todas as etapas desde o início. Dessa forma, os problemas de construção com o Cabri podem tornar-se mais complexos e serem resolvidos com maior rapidez. Da mesma forma que as máquinas de calcular em relação à aprendizagem da aritmética, o computador tem trazido um certo alívio para a memória, tornando evidente que aprender não significa dispor de uma grande quantidade de informação, mas principalmente saber o que fazer com ela.
Esta questão nos remete a uma outra diferença fundamental entre as duas geometrias, a do lápis e papel e a do Cabri: o aspecto em jogo na geometria do Cabri não é a memorização de construções-padrão como no caso do desenho geométrico dos livros didáticos, mas a operacionalidade dos conceitos. Esta questão particular no caso do exemplo nos remete de volta portanto à questão mais ampla, que envolve tecnologias e modos de pensar. Talvez a maior diferença em relação à "tecnologia da palavra escrita", como afirma Lévy, seja a possibilidade de, além do aceso à informação, explorá-la, simulando situações diversas, como vimos no caso das figuras do Cabri. A simulação, definida por Lévy como uma forma de "imaginação assistida por computador" (p.140), parece ser a característica fundamental do recurso informatizado. Compreende a experimentação, os ensaios e os erros, enquanto tipo de atividade cognitiva, valorizando a operacionalidade e eficiência. Enfatiza o papel dos modelos, relativos e provisórios, enquanto forma de representação da realidade, em contraposição à imobilidade das teorias.
Procuramos até agora mostrar que um aspecto relevante para o aprofundamento da problemática da informática na educação é o aspecto epistemológico, que diz respeito tanto aos processos cognitivos em questão na interação com os programas, quanto à análise da validade epistemológica dos conceitos envolvidos: a geometria do Logo é diferente da geometra do Cabri, que é diferente da geometria do livro didático. Portanto, se o meio gera outras funcionalidades, como vimos no nosso exemplo, resta questionar: que conhecimento queremos? E, indissociável desta pergunta: para quê?
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